Imagine só:

havia um ninho no topo da árvore mais alta da floresta. nesse ninho havia um ovo, nesse ovo um embrião, nesse embrião um desejo de viver e para esse desejo era importante o calor.

sol e lua dançavam no céu e o ovo permanecia lá. quando o céu chorava, alguém se aproximava e se fazia sol pro ovo. quando a abóbada voltava a brilhar o ovo era aquecido e permanecia lá.

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sinfonias sem fim embalaram sóis e luas, e o ovo permanecia lá… espera, cadê o ovo?
o que é isso?
tem plumas, um bico, dois olhos, duas patas… atchun!
Bem Vinda Ave!

Ave?
Cadê quem te cuida?
Quem te aquece?
Quem te alimenta?
Quem te ensina?

Ave, sacudiu o corpo, esticou asas, patas e cabeça.
Se aqueceu com o sol, se alimentou dos restos da casca do ovo, e dormiu.
ao anoitecer o céu chorou, e para se proteger, Ave fez uma cabana com as asas plumadas.
ao amanhecer olhou o horizonte e sentiu dentro de si que ela iria até lá.

Ave de nada sabia, nunca foi ensinada e nunca foi censurada.

Por isso Ave simplesmente foi.

Foi pra beira do ninho abriu as asas e saltou.

Como Ave Sabia?
Ave Não Sabia.
Esse é o ponto.

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Contemplo o Mar

Era uma tarde de sol qualquer.
Quaisquer pássaros voavam,
Quaisquer ventos sopravam,
Qualquer pensamento me ocupava.
Cores e gritos bailavam no ar.
Cabelos e sons me protegiam
E mesmo assim você me achou
– Mas como pode? – perguntei
– Estava tão invisível!
Sua mão me alcançou,
e o silêncio se desfez no ar…

Seu mar agitado me assustou.
As ondas me machucaram.
O ar tornou-se escasso.
Mas você nunca me abandonou…

Seu balanço me inebriava
Me desarmou e me fez flutuar
Quis estar para sempre ligada a ti
Mas sua imensidão não poderia ser contida num pote
E se eu relaxasse me afogaria.
(qual vida vale mais?)

Tive que nadar pra longe,
Pois as sombras me aterorizavam.
Fiquei a beira mar.
A amar-te em distância.
Me permito molhar os pés
Mas sem coragem para mergulhar.
– Será que eu voltaria?
– Será que eu me perderia?
– Será que encontraria uma ilha? um barco? uma baleia?

Sempre tão bela e intensa
tamanha força destrutiva
jamais contida por deus e pelo homem.

Sua lembrança me alegra,
Sua presença me agita,
Sua forma me comove,
Que seja eterna enquanto flui.

“Você é o meu Complemento”

Mais uma vez chegamos em um ponto crítico.
As ervas daninhas teimaram em crescer no jardim e, num piscar de olhos, tomaram conta do balanço, da mureta, do bebedouro, do banco, da caixa de correio e da maçaneta da porta. Quase invadiram a casa!

Você sugeriu fogo.
Eu pedi paciência.
Você quis mudar de casa.
Eu reguei o canteiro.
Você se deitou na grama.
E eu chorei.

Não posso acreditar no que estávamos fazendo!
Tão imaturos. Tão egoísta. Tão …
Teimo em crer que estamos fadados ao distânciamento físico, para podermos estar unidos em bem querer e boas novas.

Eu te complemento.
E isso é muito mais do que eu poderia desejar.
Com você,
eu amei.
Agora,
eu sou parte de você.
Dois presentes inesperados e inestimáveis.

Sabe, você me surpreende, de uma maneira que poucos entenderão. Você é muito mais do que as palavras soltas no ar, e muito mais do que o espelho reflete.
Estarei sempre pensando em ti, e quando estiver exausto e machucado, saiba que em mim terá o porto e o farol para te apoiar e guiar nas águas turbulentas desta vida.

Com Amor,
Uyara.

Tigre, Tigre

Quando eu tinha 11 anos, Ele apareceu sorrindo.
Sorriso largo, dentes brancos, barba por fazer.
Eu nem liguei, afinal meu livro era muito mais interessante (A Turma dos Tigres!).
Eu estava sobre uma gangorra de plástico em formato de cavalo e minha mochila surrada estava ao lado com o zíper aberto para guardar rapidamente o livro quando chegasse o momento de partir.
Eu sei que este foi o dia no qual o conheci pois foi Ele mesmo que me contou.
[Baby, abrace seus livros no peito, esconde o que é tão perfeito…]
Dias depois veio a ligação. Eu sabia que ele iria ligar pois minha amiga me disse que ele tinha meu telefone.
Eu não me importei pois eu já sabia o que falar: Não.
Mas Ele não era óbvio, não era vulgar, nem simplório. Ele era como um tigre, sorrateiro, olhos flamejantes e garras afiadas pronto ao abate… mas só no momento certo.
Eu, chapeuzinho vermelho, espoleta e solitária passeando pela floresta escura, nem me toquei do real perigo que estava enfrentando. (…tão feroz que parecia atemorizar o próprio ar.)
Eram emails, ligações, pedidos “simples” em troca da atenção que Ele me dava. Ele estava em todos os lugares e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Minha primeira “sensação de mulher” veio com Ele; meus primeiros pensamentos libidinosos foram sobre Ele, meu primeiro poema erótico foi pra Ele.
Mas isso não foi tudo. {nunca é}
Aprendi a mentir e a fazer trocas sexuais. Ele me contou como enganava outras garotas tão novas quanto eu, e me mostrou fotos delas, nuas. Ele abriu uma porta perigosa para mim (e quase sem volta) onde a prostituição era normal e o sexo um simples jogo de poder.
Ele me desejava e falava “abertamente” sobre isso. {sendo que naquela época eu nunca tinha dado um simples beijo}
A secretária dele repassava minhas ligações normalmente e nós falávamos horas sobre Raulzito e Osíris, Crowley e Picasso, Teorias da Conspiração e sobre Agnosticismo. Ninguém falava comigo sobre esses assuntos. E foi aí que a armadilha se fechou sobre mim. E a minha transmutação para tigresa começou.

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Foram 10 anos de transformação.
Agora são 5 anos de readaptação.
Repetindo todos os dias: a culpa não é sua. eu sei. a culpa não é sua. eu sei. a culpa não é sua. eu sei. a culpa não é sua. eu sei. a culpa não é sua. não me sacaneie. a culpa não é sua. eu sei. a culpa não… eu sei, eu sei…

Algumas frases ficaram corrompidas:
“Olha o que você me faz fazer!”
“Queria que pudesse sentir.”
“Eu preciso de você agora.”
“O que você está sentindo?”
Podem parecer frases simples, imersas nos mais diversos contextos, mas, para mim, elas carregam flash de memórias intensas e negativas.

Talvez a parte mais difícil dessa readaptação é a falta de empatia das pessoas. Quando elas sabem do seu trauma te tratam com dó e distância. Quando elas não sabem do seu trauma tendem a achar que você está sendo evasiva, ou que o problema são “elas”. E é nesse momento que ocorre o distanciamento e a reclusão em concha de sílica.

Mas a superação existe.
Superar através da ação.
Criar novas lembranças.
Ressignificar.
Mesmo o que foi quebrado, pode ser transformado em uma nova utilidade.
Ressignificar.
Aceito quem sou, o que sou, e como sou, e sigo o meu caminho.
Por vezes, perguntando ao Pó por onde andei, e desfazendo o nó da garganta pelo vento e pelo grito.

C’idade Cinza, Capítulo 1

Escrito com a benção hipotética de John Fante, Chuck Palahniuk e Rupi Kaur:

a luz do dia invadia meu quarto através da janela quebrada. acho que não posso chamar de invasão já que a janela está assim desde que eu me mudei há 2 meses. queria permanecer deitada na cama, mas esse desgraçado ocupou quase todo o colchão de solteiro carcomido que eu trouxe da casa de meu pai. acho melhor levantar. Continuar lendo “C’idade Cinza, Capítulo 1”

Ma Anand Sheela – Wild Wild Country

Antes de assistir a série documental Wild Wild Country dirigida pelos irmãos Maclain Way e Chapman Way e produzida pela Netflix eu não sabia nada sobre Osho, Rajneeshpuram e, menos ainda, sobre Sheela. É fácil perceber que este documentário é um pequeno recorte das mais de 300 horas de vídeos caseiros feitos pelos próprios sannyasins, e das reportagens feitas na época, contudo, como os irmãos Way declararam em entrevista, essa história não passou a diante depois dos anos 90, ficando apenas na lembrança de quem estava lá. Continuar lendo “Ma Anand Sheela – Wild Wild Country”